21-11-16

A REVANCHE DOS VIRA-LATAS

Primeiramente, fique calmo meu amigo. Não precisa entrar em desespero. Se você leu o noticiário esses dias e percebeu que as três principais capitais do país serão conduzidas por um apresentador de TV com botox, um pastor e cantor gospel, e um famoso cartola do nosso futebol deve estar a esta altura procurando algum vestígio do portal dimensional que esse país deva ter atravessado, para tentar por ele voltar correndo. E mesmo que hoje você tenha acordado com a espetacular prisão do Lula,  algum vazamento daqueles autorizado por juízes-celebridades, ou até mesmo se o Cunha decidiu derrubar o presidente uma segunda vez, espere: É preciso compreender como viemos parar aqui, até para entender melhor aquele velho amigo que não para de vomitar preconceitos horrorosos nas redes sociais bancando o superpolitizado. Além de uma tripla crise in vitro: política, econômica e social, não paramos de nos surpreender com a histeria de desembargadores fazendo discursos políticos, com a demência de políticos defensores da antipolítica, e principalmente com um rescaldo medieval em plena sociedade da informação que faz parecer cada "patriota" com uma camisa verde-amarela mais um camicie nere. Houve um evento que golpeou nossa identidade de morte, em nosso passado recente, e que será lembrado a cada geração futura de brasileirinhos, você lembra? Tente não rir, mas acho que encontrei os exatos dia e local onde foi aberto esse portal dimensional. Com boa dose de ironia e sarcasmo saberemos de uma vez por todas como se manipula o ódio, mesmo que não saibamos nos livrar dele depois. Fique tranquilo, não tenho provas, mas tenho muita convicção:

Aquela tarde de 08 de Julho de 2014 era dos deuses do futebol. Não dos deuses lendários em sua passagem terrena como Puskas, Di Estéfano, Didi, Leônidas e Garrincha, mas dos deuses menores, ansiosos por fazerem história a qualquer custo e sentarem ávidos o trono das divindades. Zombeteiros que eram, jamais herdariam o Olimpo, jamais. Mas nunca subestime a força dos elementais. Dentre eles o temido, porém menosprezado, Sobrenatural de Almeida. Sempre relegado a personagem secundário, mesmo após o Maracanaço de 1950, estava prestes a dar um golpe vingativo na história do arrogante futebol brasileiro. Foi assim: De um lado orbitava o temível esquadrão da tricampeã Alemanha, 11 jogadores de sua melhor geração em 40 anos desde a taça erguida em Berlim pelo Der Kaiser Franz Beckenbauer; do outro do campo constelavam 200 milhões de pessoas junto à amarela histórica, que, apesar de desfalcada, fazia em casa um ensaio geral sobre o que seria uma grandíssima final, muito provavelmente contra a arquirrival Argentina em nosso santuário o Maracanã. A arquibancada lotada de uma cara massa amarela pipocava seus smartphones entre um ou outro grito exaltado à óbvia lógica de que o fim daquela história deveria necessariamente lhes ser favorável. Infelizmente arquibaldos e geraldinos, tradicionais frequentadores e principalmente sabedores das artimanhas dos elementais, sucumbiram para a voracidade da cadeia alimentar de ingressos Padrão Fifa. Eles pairaram apenas frente à TV, de mãos atadas, quando o mexicano soprou o silvo inicial.

Nos primeiros minutos a tez amarrada, o ímpeto das divididas e a horda de torcedores em transe deram aos amarelos a esperança necessária de que aquele povo eleito teria a sua glória conforme as sagradas escrituras do esporte bretão. Só que não. Aos onze minutos Thomas Müller faz 1x0 após falha de marcação de David Luiz em uma cobrança de escanteio. Nada estava perdido, ao invés disso a massa amarela enfureceu de vez e empurrava o escrete brasileiro pra frente com gestos vibrantes e o punho cerrado. Foi então que aos 26 minutos, Klose em rebote fez o segundo gol calando a torcida pela primeira vez sob um sorriso maroto do ardiloso Sobrenatural. As primeiras lágrimas brotavam nos rostos das crianças do estádio, enquanto um enlouquecido David Luiz teve uma visão. Algo precisava ser feito, aquilo não poderia ficar daquele jeito, e o zagueiro guerreiro deixou a defesa brasileira partindo para o ataque como patriota para fazer justiça e cumprir sua missão. Foi aí que o elemental preparou a sequência de lances mais humilhantes para o futebol brasileiro em sua história. Kroos aproveitando-se do buraco deixado na zaga marcou mais dois belos gols para os germânicos: aos 24 minutos, em um bonito voleio, e aos 26 minutos em grande troca de passes. O mundo parecia não acreditar, os primeiros memes invadiram as redes sociais. Foi então que segundos após o quarto gol, Kroos roubou a bola no meio campo de um frágil Fernandinho, e numa sequência de toques rápidos com Khedira balançou a rede brasileira pela quinta vez. Exatamente, a Alemanha, em pleno território brasileiro, havia feito 5x0 no Pentacampeoníssimo Brasil em menos de meia hora. É impossível mensurar o desespero de arquibaldos e geraldinos em suas casas nos rincões pelo país afora, mas o que se viu no estádio foram milhares de céticos envergonhados, muitos com a cabeça enterrada em seus práticos smartphones. Muitas outras procuravam talvez um Ivo Holanda, ou a produção de um programa de auditórios que explicasse o que definitivamente era aquela pegadinha. Mas não parou por aí. Um Felipão irreconhecível e nitidamente atropelado pelas circunstâncias executou algumas alterações para a segunda etapa que resultaram em burocráticas tentativas de dar contornos dignos àquela tragédia. Mas aos 24 minutos do segundo tempo Schurlle que viera do banco alemão iniciou uma nova blitzkrieg na área canarinho resultando nos sexto e sétimo gols, este último numa falha de Julio César aos 34 minutos. O medo de que aquilo descanbasse para um mal caminho fez com que o efetivo das polícias militares do país fosse dobrado nas ruas. Cada brasileiro sofreu a sua maneira, mas aquela gigantesca massa amarela em sua maioria preparada desde a infância para finais felizes pela TV, e que pagou aquele caríssimo ingresso, viu seus filhos chorarem de humilhação. Aquilo deveria constar no Código de Defesa do Consumidor. Pensaram talvez como nosso zagueiro guerreiro que isso não poderia, não deveria ficar daquele jeito. O primeiro grito de ódio de um brasileiro vestido de amarelo provavelmente teve como alvo um Fred, Felipão ou Bernard. Nem o gol de honra, termo inclusive irônico demais para o caso, fez os corações humilhados arrefecerem. Matérias da mídia internacional posteriores destacavam o constrangimento de oficiais, jornalistas, ex-jogadores, torcedores, e inclusive dos próprios estrangeiros presentes. A varada teutônica foi tamanha que não seria surpreendente saber que as câmeras ufanistas da Rede Globo evitaram a todo custo lá pelas tantas do segundo tempo captar um David Luiz de olhos arregalados, trêmulo, chupando o dedo em posição fetal. O cordial brasileiro reservou aplausos para as visitas e vaias graves para os nossos. O ressentimento a partir daí nunca fora tão alto na Casa Grande. Em outros tempos restaria à senzala  apenas o canto dolorido da chibata. Gol da Alemanha, e agora? 

Confesso que foi muito tentador trabalhar com esse tipo de provocação. O título talvez fale por si só, mas não sou de ferro, estamos na mesma trincheira do apocalipse, e as vezes é impossível não rir do conservadorismo tão primário desses dias trevosos. Sempre dediquei préstimos a capacidade intelectual de qualquer leitor, mas preciso dizer que sob estes tempos tacanhos não me admiraria saber que boa parte das pessoas acreditou que eu esteja fazendo uma defesa fiadora do nexo causal entre o maior movimento reacionário que se vê por aqui desde os idos de 1964 e a hecatombe futebolística brasileira do 7 à 1 no Mineirão. Valerá o risco, apesar de poder ser incompreendido, de rir internamente tal qual Sobrenatural de Almeida do que considero um critério de seleção natural dos cérebros mais sensíveis ao sarcasmo. Reivindico desde já, como escusa, o direito de ser joio ante o vaticínio bíblico da escolha irremediável do trigo. Vá lá, que seja. 

Mas confesso também que nada disso foi por acaso, e jamais assumiria aqui qualquer postura vanguardista sobre o tema. A verdade é que atribuir aos grandes momentos do futebol, nosso “esporte oficial”, papel de destaque nas transformações políticas e sociais brasileiras, cada qual ao seu tempo, não é algo inédito. O desastre da Copa de 50 e seu impacto negativo no imaginário do complexo de vira-lata brasileiro; a apropriação da maior seleção de todos os tempos, a de 1970, por parte do Regime Militar; e o deslumbramento do país em tempos de reabertura com o futebol moderno da seleção de 82 também já foram temas de estudo. Mas o que me chamou a atenção foi o trabalho de um jornalista escocês, Andrew Downie, que vem preparando um livro sobre a vida do saudoso Dr. Sócrates, finado jogador do Corinthians e da Seleção. Neste trabalho ele parte da premissa de que o movimento de redemocratização do país passou a ter efeitos exponenciais no país a partir da chamada Democracia Corinthiana (movimento que deu aos jogadores do clube participação ativa na sua vida financeira, política e administrativa) encampada pelo jogador anos antes, em pleno Regime Militar. Teoria ousada demais? Talvez, mas admitamos também sua perspicácia. Toda mente aberta às ideias deve esperar a publicação para ver e julgar o trabalho final. O raciocínio que modestamente aplico nestas linhas é o mesmo, diferindo apenas quanto aos seus efeitos para a história político e social do país.

E antes de partirmos para o chamado “nexo causal” cabe uma homenagem à beleza digamos “adúltera” de um dos maiores dramaturgos brasileiros: “Antigamente, o silêncio pertencia aos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.” A frase atualíssima de Nelson Rodrigues, dentre inúmeras outras dele, para muitos deve soar como uma premonição. Eu diria que nem como um prognóstico soará, no máximo um triste diagnóstico, à moda Rodrigueana, claro. A ironia quanto ao papel do torcedor brasileiro na Copa do Mundo mais acima não foi gratuita. Com a gradual elitização do futebol brasileiro o próprio torcedor tradicional, de baixa renda, popular, vem sendo afastado dos estádios, trazendo para dentro dele um perfil diferenciado, o de um consumidor ávido por um tipo de serviço. Independente do julgamento de valor pseudo-saudosista a respeito do papel histórico da torcedor dos estádios, convenhamos: o cidadão que paga um salário mínimo para assistir a um jogo com seus familiares, valendo-se de alimentação, uso do estacionamento, gasolina, etc, estará em busca de tudo o que se refere a um espetáculo, e de toda a gama de serviços que envolve a produção de algum. Ou seja, ele quer um bom assento, um bom serviço, um tratamento compatível com o que ele investiu, e por que não gols antológicos, pedaladas à lá Robinho, elásticos à moda Rivelino, jogadas mágicas, tudo o que ensinaram para ele que o futebol brasileiro poderia oferecer, não? Que mal há nisso? É pecado? Não. Mas ocorre que o torcedor consumidor corre riscos ao estender sua visão do que é um “produto” a uma inadaptação do que é a própria imprevisibilidade do esporte em si, diferentemente do que pode oferecer um espetáculo. Ele pode entender o jogo como um mero serviço a ser prestado, inclusive seus resultados em si. Assim como avaliar o quanto de retorno há nessa paixão investida, uma espécie da amor contábil, frustrando-se, principalmente, e abrindo mão de outros valores próprios do esporte, valores olímpicos de congraçamento, integração, etc. Como lidar com esse tipo de torcedor se o elemento paixão hoje é relativizado, ou até volatilizado segundo interesses de consumo? Compreender que a paixão por um símbolo, um ídolo, ou uma bandeira nasceu desconectada do valor agregado que se atribui a um serviço a ser prestado é tarefa muito difícil para as expectativas de um consumidor. É mais complexo, não se trata de  um video-game de última geração, o fim de uma novela das oito, ou uma curtida em uma rede social, a realidade fora dos simulacros, da virtualidade, é lenta e produz história. Quem é afinal aquele torcedor humilhado pelo 7x1? E se esse torcedor consumidor fosse no fundo a versão manifesta de um cidadão-consumidor? A jornada do herói grego trágico é muito diferente do super-herói fast-food que nos entrega tudo resolvido no final. Como ensinar a enxergar a democracia, o republicanismo, as diferenças a quem vê a vida apenas como uma relação hedonista entre investimento/satisfação?

Nelson Rodrigues, profundo conhecedor tanto das perversões do ser humano médio e suas imposturas, quanto dos indecifráveis enredos do futebol, sempre será nosso anjo pornográfico. Curiosa essa associação da pureza angelical aos desejos primais da pornografia atribuída a ele. Foi um profundo admirador dos papeis sociais das personalidade dúbias. Talvez por isso, além de declaradamente identificado com ela, foi o que melhor escrutinou o pensamento daquilo que chamamos desleixadamente de Classe Média. Lar talvez mais confortável dos torcedores-consumidores, e por que não, dos cidadãos-consumidores? Um típico representante seu, soube como poucos fazer arte do mais alto nível de suas corantes hipocrisias, e soube descrever com rasgada ironia o orgulho farisaico de seus costumes, que não resistia nunca à força revolucionária da tragédia.

Não cabia a ele, Nelson Rodrigues, julgá-la definitivamente. Nem mesmo os muitos especialistas, atentos a esse segmento social com um peso tremendo nos rumos da política tupiniquim, arriscariam. Decifrá-la, sim, e traduzir essa atração reprimida pelas ruas a partir do conforto de suas varandas é de fato compreender inclusive estes tempos em que a democracia sofre o GOLPE NA AMENDOEIRA (clique aqui). A primeira coisa que devemos saber é que a Classe Média não é uma massa homogênea, compõe-se de inúmeros segmentos muitas vezes antagônicos entre si. Esse fator dá a ela beleza e inconsistência, por isso sua importância. Jesse de Souza, sociólogo, que vem escrevendo muito sobre as tormentas atuais é enfático ao atribuí-la forte papel de  controle social. Se por um lado um número ínfimo de famílias no Brasil controla a maioria de suas riquezas, a Classe Média, que não faz parte desse grupo, é quem, a despeito de sua condição infraestrutural, forma opinião, manipula os instrumentos de controle, trabalha para a conservação da desigualdade. Juizes, promotores, jornalistas, professores universitários, há uma fração de formadores de opinião, como jogadores polivalentes atuando no meio de campo de um time, incidindo sobre o resto da pirâmide social, sobretudo em suas camadas inferiores. Se não é a portadora dos meios de produção, ao menos tem um papel ideológico importante para que a sociedade faça uma leitura "conveniente" do todo. Entendamos sua diversidade: Há segmentos de características liberais, outros mais progressistas, outros religiosamente conservadores, outros ainda tipicamente reacionários com traços protofascistas. Se mergulharmos, submetermos, essa estrutura complexa no incandescente caldo político brasileiro atual teremos reações muito distintas dentro da mesmíssima Classe Média. Por isso é nela  que se dará a disputa pelo poder político nos próximos anos, e consequentemente como a agenda brasileira será construída. Veremos a imensa carenagem brasileira embicar para um lado ou para outro nas próximas duas ou três décadas, e isso se decidirá dentro do seio da Classe Média dada a sua influência nas ruas. Por exemplo, vejamos de perto a fração dessa classe de características liberais: Apelidada como “Oslo”, por Jesse Souza, por ter uma visão de mundo escandinava, essa fração é não-intervencionista e plenamente democrática: Talvez sejam moradores dos bolsões de alta riqueza em São Paulo ou Rio de Janeiro, sem convivência alguma com a pobreza extrema e outros desequilíbrios, dependentes em suas relações profissionais que sejam inteiramente respeitados os contratos, observado o padrão solido de segurança jurídica para seus lucrativos fluxos de investimento. Que leitura farão eles ao perceberem que o país intensificou sua crise ao violar seu maior contrato jurídico? Derrubou sua presidente sem cometimento de crime de responsabilidade comprovado, e valeu-se de justificativas legais altamente questionáveis, a despeito de uma profunda crise ética que assola a classe política? Um país que segundo pesquisa recente tem mais de 40% das pessoas acreditando que seu próprio Ministério Público, associado as instituições jurídicas, agem parcialmente? Que tipo de segurança jurídica esse país pode oferecer? Que modelo de Democracia é esse que responde com tamanha bruteza e falta de ética às suas mazelas históricas? Esse importante segmento de Classe Média, que muito provavelmente assim como o resto do país foi às ruas após assistir a Globo News, ouvir CBN ou ler o G1, pode estar achando que foi enganado, manipulado, ou até envolvido por uma bolha ideológica. Esse grupo também é capaz  de formar opinião.

Fato é que na história desse país o tema corrupção, apesar de longevo, só faz essa entrada histericamente triunfal no imaginário popular quando o controle do Estado está sob alto risco de fugir das mãos dos seus maiores concentradores de riquezas. E isso se dá em momentos de crise, quando o dinheiro fica curto e o metafórico “bolo” dos teólogos da prosperidade não está tão grande assim para ser dividido.  Daí assistimos, por exemplo, iniciativas políticas como uma PEC de congelamento de investimentos e gastos do governo serem anunciadas como única saída para se colocar o país nos trilhos. Nada contra, uma medida que racionaliza o uso do dinheiro público é mais do que necessária. Contudo, após uma segunda e mais atenta leitura percebe-se que os gastos financeiros e transferências de capital aos bancos, por exemplo, estão fora do chamado "teto de gastos", abrindo mão da própria arrecadação. Que a mesma urgência em limitar gastos de grande impacto social para a base da pirâmide é capaz de ser condescendente e promover uma infinita renegociação de dívidas de Estados insolventes, não estabelecer também uma tributação de heranças ou até atribuir uma faixa de IR proporcional incluindo os super ricos do país, em sua maioria especuladores. Como citou Élio Gaspari em recente coluna na FSP, a PEC é um Leão amestrado, ruge forte e morde para baixo, mia e ronrona ao olhar pra cima, numa autêntica peça legal do que seria um viralatismo revanchista. E é a Classe Média em sua versão xiita hoje que faz o controle ideológico para que o script saia conforme o ensaiado: Ou seja, todos acreditarem que estão cumprindo sua cota de brasileiro cordial, e que há uma partilha justa da imensa conta a se pagar, como num bonito "Album de Família". Obra essa com forte tensão psicológica de Nelson Rodrigues em que uma bela família de classe média esconde em suas entranhas os mais variados desejos incestuosos e ódios reprimidos entre irmãos, mãe e pai. A família perfeita é o lar da violências simbólicas e outras repressões. Assim como nessa obra, a Classe Média é portadora de um papel dúbio: de classe explorada por impostos e juros extorsivos, mas também fiadora das altas transferências diretas aos seus algozes rentistas, aos bolsistas e cotistas (embora saibamos que os valores destes são uma parte infinitesimal daquele). É como se Nelson Rodrigues assistisse por um buraco da fechadura a moralidade e a decência de uma família orgulhosa sendo desmascarada num quarto escuro através de um adultério incestuoso. Em nome de um desejo de ter privilégios do andar de cima, combate-se o pesadelo de ter que dividir espaços praticando as maiores violências contra os próprios brasileiros. Em nome de uma decência inata saiu às ruas de amarelo, sob o manto de uma castidade, para gritar contra a gastança e a corrupção, mas atribui a culpa pela sua perda de qualidade de vida aos novos vizinhos. Responsáveis únicos pelos seus pesadelos, condenados eles serão, mas por pura rejeição  estende a penalização a todos, incluindo a si mesmo, e sem perceber. Jesse de Souza chamou esse duplo papel da Classe Média de uma relação sadomasoquista, justificando-a como uma espécie de gratificação substitutiva, usando um termo Freudiano para explicação. Vítima de uma infantilização geracional a nossa irresistível Classe Média  parece querer imitar seus ídolos do vértice da pirâmide, sentimento desenvolvido através de um simultâneo ressentimento e admiração. É coletivo social que a despeito de sua heterogeneidade elege segmentos que agem julgando-se um povo eleito no seio do povo brasileiro. É uma grande celebração em família, abençoada por Deus, como o quadro "O jantar" de Debret.

Sadomasoquismos à parte, faz-se necessário compreender ao menos como os sintomas se manifestaram durante todo esses últimos anos. Em 2013, especificamente em Junho, mesmo com números favoráveis na economia algo de estranho repercutiu no seio da tradicional família brasileira. Manifestações iniciadas por um grupo com orientação de esquerda, o MPL – Movimento Passe Livre – inundou as ruas dos país contra o aumento das passagens de ônibus. Nunca foi por apenas por vinte centavos, era maior, era talvez contra uma sensação de estagnação muito mais complexa do que as recebidas pelas agruras do cotidiano. Muito em função da repressiva condução da polícia por parte dos governos estaduais às manifestações, o caldo esquentou de forma dramática. Um ano antes da Copa do Mundo o país fervilhava emudecendo críticos e afugentando a classe política. Milhares às ruas sem distinção partidária, movidos sabe-se lá pelo que, apenas talvez em nome do direito de se negar, a negação irracional, meramente sinestésica, como diria Marcuse. Muitos questionam hoje o papel do MPL, e suas responsabilidades, pelo que se acrescentou posteriormente até chegarmos ao Golpe Parlamentar de 2016, atribuindo ao grupo um autêntico gol contra. Mas o fato é que emergia ali uma forte crise de representação tendo como base uma geração que cresceu sob valores profundamente imediatistas, mergulhadas em novas mídias sociais desde muito cedo. Um choque até previsível de uma geração contra as canhestras estruturas políticas,  tanto à direita quanto à esquerda do espectro político brasileiro. A nossa primavera havia finalmente chegado, e com ela a incerteza de pouco se saber o quão brutal havia naquele cheiro das flores que entorpeceu a juventude do mundo, produzindo conflitos, derrubando regimes, gerando turbulências, manipulados ou não. Jamais o MPL teria isso em mente desde o início. Ao contrário de muitos especialistas sinceramente acredito que não, mas foi aquela força das ruas que, posteriormente, quedou frágil, manejada que foi pelos interesses de outros importantes atores como as corporações de mídia, os rentistas, os guetos de Brasília. O objetivo novo era centrar fogo num projeto político que não se alinhava mais com suas expectativas de gueto, longe, muito longe da utopia moralista anticorrupção das ruas. A ingênua materialização do mal da corrupção por parte da Classe Média, na figura de pessoas ou partidos políticos, transformou uma profunda mudança político-social em uma mera cruzada moralista contra um inimigo a ser batido. Como uma possessão espiritual à la Janaína Paschoal, deu contornos higienistas, messiânicos e esquizofrênicos ao que poderia ser a derradeira reconstrução de nossa própria identidade. Longe de comparar as duas "personagens", mas uma cruzada moralista tão implacável e irascível quanto a de Janaína foi assumida pela virtuosa personagem Engraçadinha, que surpreendentemente escondia em seu passado uma gravidez e uma paixão tórrida pelo próprio irmão. Nelson nos ensinou a desconfiar das ideias fixas, apesar de afirmar que ninguém que não tivesse cinco ou seis delas poderia ser levado realmente a sério. Pois bem, a tal ideia fixa foi levada a tal ponto, que a grande imprensa não pensou duas vezes em abrir uma verdadeira caixa de pandora social no que tange a disseminação de valores anticivilizatórios, persecutório de minorias, beirando o linchamento público. Em seu último trabalho, a Radiografia do Golpe, o autor Jessé de Souza avalia e tipifica as notícias divulgadas pelo Jornal Nacional, diariamente, e decifra como a narrativa sufocante da insatisfação contra a corrupção foi entregue a um grupos conservadores radicais, para daí ser amplificada e massificada para toda uma população, ganhando ares de propaganda política. A premissa de que a corrupção nunca fora tão grande no governo e nas instituições públicas atingiu em cheio à mentes pouco politizadas, de viés conservador e antidemocrático, e profundamente imediatistas. A corrupção havia ganho rosto e nome, e estava prestes a se eternizar no poder através dos mecanismos de Estado. Era preciso ser rápido. O antagonismo plasticamente desenvolvido entre as imagens de Sérgio Moro e Lula, como baluartes diametralmente opostos, baseada na sempre precária construção dos conceitos de bem e o mal, foi a cereja do bolo. Além de levar milhares de cidadãos enfurecidos às ruas, elevou o interesse popular a índices de audiência de final de copa do Mundo. Tal evento também expôs estes personagens ao máximo de seus papeis públicos fazendo ruir a necessária imparcialidade e isenção que um processo de tal gravidade precisaria sustentar para atingir seus verdadeiros objetivos. O que o país dentro de toda essa artificialidade nesses 30 meses assistiu foram as manifestações de Junho serem depuradas, embranquecidas, radicalizadas, filtradas quanto a renda per capta dos customers, herdarem a camisa brasileira do 7x1 até completarem seu curso semanas antes da deposição de Dilma Rousseff. Dias profundamente constrangedores para a nossa história vieram como o patético 17 de Abril onde o mundo conheceu como essa República julga os seus, como motiva suas decisões, e pior qual é o nível de autoridade moral dos acusadores. O pensamento mais conservador e radical estava agora liberto para propagar seus valores e agir politicamente, pois havia tomado os mecanismos do Estado brasileiro, avalizados pela indignada Classe Média, pela mídia corporativa, e por sua vez espetacularizados pela Justiça. Uma duríssima noite de São Bartolomeu foi iniciada contra todos aqueles que trabalham em defesa de valores progressistas, uma desconstrução revanchista de um projeto político, que independente de julgamento pessoal, fora legitimado nas urnas durante anos. Não eram os erros que estavam sendo combatidos agora, eram os acertos. Como mera audiência televisiva assistimos hoje a era dos espetáculos políticos, a era das simulações, os ensaios gerais dos nossos simulacros de Democracia e Justiça, nos quais o espetáculo e o exagero substituem a realidade como se realidade fossem. Em Junho de 2013 foi chocado o Ovo da Serpente, a base social que avalizaria o vindouro Golpe Parlamentar de 2016. Essa base social liderada pela fração mais conservadora da classe média via a ascensão dos mais pobres como uma disputa por espaço e posteriormente, por conta da crise, uma disputa por distribuição de renda. Há ali, lamentavelmente, como em todos os setores da sociedade brasileira, elementos de discurso que obedecem a uma lógica escravocrata, que é cega ou no mínimo condescendente com estruturas de aprofundamento da desigualdade que sempre atravessaram toda a história do país.

Nelson Rodrigues, numa antevisão magistral da forte influência que a mídia assumiria nos dias atuais, em sua obra "O Beijo no Asfalto" nos presenteou com a personagem Amado Ribeiro, um repórter sensacionalista despido de caráter que não pensa duas vezes em forjar provas, manipular informação e arrancar à força testemunhos para submeter Arandir a um extermínio midiático de reputação. O personagem Arandir, um transeunte, apenas realizara o último pedido de um homem que acabava de ser atropelado, um beijo antes da morte. O papel, porém, que devemos dar as corporações de mídia não pode ser reduzido apenas a uma conduta moralista radical. É preciso assinalá-lo quanto ao terrível fato de dar deliberadamente o controle da narrativa política do país a uma fração ultraradical da classe média. Dessa forma ela libertou o protofascismo que existe dentro dos discursos anti-políticos aos milhares por aí. Há uma ideia equivocada de pensar-se no Fascismo apenas através de figuras como Mussolini e Hitler, mas antes disso há uma base social onde esses personagens nascem e transitam com segurança. Eles na verdade foram realizações radicais do aprofundamento do fascismo em seus respectivos tempos e culturas. Precisamos assumir que o fascismo é algo que existe no subterrâneo da vida política de qualquer povo e que não deve ser remexido sem muita ciência das consequências possíveis. É necessidade urgente democratizar todos os acessos à informação e suas formas de divulgação, não há democracia possível quando não se constrói uma base para um acesso a mídia de forma igualitária entre nós. E o risco que se corre para um país que tem uma mídia corporativa herdeira ultima de um Regime Militar é esse: Pequenos grupos são legitimados antidemocraticamente para controlar, manipular e editar informação, no mínimo irresponsavelmente para os mais variados fins, inclusive para destruição de outros grupos. Um exército de Amados Ribeiros.

Não é difícil entender também as razões dessa derrota estratégica por parte do governo. Erros, crimes, má-fé e incompetência não faltaram, mas o que esses tempos de ódio procuram é desconstruir possíveis projetos de país que porventura venham a se pautar no combate a desigualdade de renda e reequilíbrio de diferenças sociais através de ações do Estado. Muito inclusive se questionou acerca do papel que o governo Dilma deveria exercer tendo em vista a iminente estagnação do período mobilidade social e inclusão de classes já em 2010. Uma nova perspectiva de inclusão social deveria ser apresentada aos já absorvidos dos últimos 20 anos, pós aplicação das premissas Pré CF-88, nossa Constituição cidadã. A essa nova massa de ascensos que somou-se a Classe Média nos últimos anos a literatura vem dando o nome de precariado. Sim, é a chamada classe C ou a nova classe média, que ascendeu fruto das politicas de inclusão, mas que trazia consigo valores e expectativas medianas, de base conservadora e cristã, e que restou facilmente suscetível ao canhão ideológico inaugurado em 2013. Curioso analisar, mas um fenômeno não muito diferente ocorreu com o proletariado do ABC no final da década de 70, onde logo após um período de relativa ascensão socioeconômica dos metalúrgicos fruto do milagre econômico, houve uma violenta interrupção da mobilidade em função da crise. Milhares foram aos portões das fábricas questionando os valores e o projeto do já enfraquecido Regime Militar. A partir daí enxergou-se um efeito colateral tardio que o limite do crescimento havia imposto nos idos de 1980. Essa conflagração naturalmente também levou a um combate maciço ao Regime rumo a reabertura do país. Ventos da Democracia Corinthiana? Ironicamente esse foi o berçário para o nascimento do Partido dos Trabalhadores.        
         
Hoje há uma fé no triunfo da prosperidade. O individualismo à brasileira tem muita reponsabilidade sobre essa forma impassível e utilitarista de ver o outro igual. Sua posterior radicalização chauvinista vem consequentemente minando o diálogo e a alteridade. Faltou às ruas abarrotadas de amarelo com seus patos e babás carregando carrinhos de bebê o elemento principal, a perspectiva do outro, o outro que difere. No exercício pleno do jogo democrático sempre será a política em seu sentido essencial que dará as cartas. Onde não houver diálogo, e de alto nível, pode não haver tolerância. Disse uma vez o mestre profano que "a maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão". Andamos como país, carentes de comunhão, pois só há grito e palavra. O diálogo, palavra e silêncio trocados, trabalhando e fundindo diferenças é o caminho para dialeticamente produzirmos uma nova realidade. Há que se combater a falácia de que o Estado provedor, o combate às desigualdades sociais, e as políticas públicas voltadas para a inserção de grupos marginais são as âncoras contra o vôo redentor de uma geração rumo ao sucesso. E tal capital simbólico circula imantado pela fervilhante Classe Média que retroalimenta seus segmentos formando opinião, dentre eles os mais recentes como o precariado. Há que se combater um novo dogma. Um fato curioso e polêmico correu as redes recentemente acerca de jovens advogados tanto do setor público como do setor privado que participavam de cursos organizados pelo governo do USA, patrocinados por corporações e multinacionais. Um internauta americano fez um post acerca da demanda brasileira por tais cursos e traçou dois perfis de alunos: Um de formação mais sofisticada e base genuinamente liberal, e outro, embora com bom desenvolvimento técnico, era preso a uma profunda formação conservadora, com visão de mundo limitada e provinciana. Ao final jocosamente disse que se o mercado absorvesse o primeiro grupo estaria a salvo de profissionais meramente americanófilos, cujo papel secundário que os restaria seria apenas de “doutrinadores”. Pois é, mas a sociedade brasileira não está salva deles. Uma observação mais cuidadosa nos levaria a constatação de que o comportamento atribuído ao segundo grupo vale quase como regra entre muitos juízes, promotores, policiais, espraiando-se para outros setores profissionais como médicos, empresários, fazendeiros, industriais, militares. Valores esse volatilizados e reproduzidos. Uma lamúria de uma espécie de brasileiros azarados, como se por ironia do destino tivessem nascido nesse país, e não em Miami. O impacto não poderia ser diferente ante o profundo e já discutido "complexo de vira-lata" brasileiro, romanceado nas crônicas da derrota de 1950 da seleção brasileira em pleno maracanã. O que o viralatismo pós 7x1 de hoje será capaz de produzir? Que falta fez a sabedoria do Dr. Sócrates...            

Neste sentido, Marilena Chauí já vinha profetizando acerca dos novos/velhos valores em seu nascedouro ao assumir duramente que ”a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante". Há uma triste violência nela, mas dentro também rumina uma verdadeira ingenuidade. Verdadeira por que olhar o país através de suas entranhas e reconhecer que a corrupção é um modus operandi nacional estabelecido não é tarefa fácil para qualquer geração debutante na política e minimamente sensível. O gigante que acordou nas ruas descobriu-se uma criança violenta. Lidar com as próprias hipocrisias é profundamente trágico, a esse respeito não só Nelson Rodrigues fez arte, mas muitos historiadores do país já contribuíram em seus trabalhos. E também profundamente ingênua por que assumiu que o idealismo de sua inadiável transformação social precisa valer-se de mecanismos repressores e autoritários, baseados em preconceitos de classe, já há muito utilizados em outros momentos da história brasileira. Inclusive de forma muito dramática. Os mesmos mecanismos que hoje, mais uma vez, atentam contra a frágil democracia. O veneno continua sendo inoculado nas relações publico-privadas. Como qualquer Lava-Jato de subúrbio, a limpeza por fora é boa e barata, mas por dentro é mais caro. Pode estar nascendo hoje uma geração de corruptos ainda mais aperfeiçoada, assim como nasceu na Itália pós Mãos-Limpas, reféns hoje de figuras que dispensam apresentações, negativas claro, como a de Silvio Berlusconi. Essa marcha de indignados atravessou a Copa do Mundo e seus soldados talvez tenham se reconhecido pela primeira vez como apóstolos da libertação brasileira dividindo uma mesma arquibancada, muitos ostentando os mesmos gadjets, alguns outros as mesmas marcas, o mesmo uniforme amarelo, e sobretudo longe de quaisquer Geraldinos desdentados ou Arquibaldos bêbados. No momento da maior humilhação histórica, maior indignação, maior incredulidade estavam lado a lado, talvez perguntando-se porque comigo? Esse Brasil não mais representava, era necessário tomá-lo de volta. Algo precisava ser feito pelas pessoas de bem que pagam seus impostos devidamente. Como o guerreiro David Luiz lançaram-se ao ataque com a convicção do iluminados e o ímpeto dos heróis. Para realizar a missão divina de compor a casta dos eleitos, abandona-se a tática, abandona-se a ideia de todo, a estratégia, os princípios civilizatórios em nome de um chamado ufanista de um cada vez mais caricatural Galvão Bueno. Em nome de um revanchismo a massa partiu para o ataque para reverter o resultado. E assim foi.  Os gritos de gueto, de guerra, e de ódio não calaram no fim do jogo, deixaram os estádios e vieram a se ocupar das ruas. Mulheres, empresários, estudantes, aposentados, funcionários públicos e babas vestidas à caráter resolveram ir à forra, era o momento de gritar "contra tudo que havia por aí". O horário nobre jornalístico fez de cada amante do Big Brother Brasil um ansioso por novos vazamentos reproduzidos pelos âncoras do Jornal Nacional como num teatro kabuki. Ocorre que a revanche na verdade era do Sobrenatural de Almeida, jamais fora do David Luiz embora ele acreditasse, e cá sobramos nós. O Pós-Golpe apresenta hoje sua agenda dilapidadora de conquistas sociais, reduzindo toda a gama de politicas públicas e sociais a uma asséptica agenda programática de primeira-dama decorativa. Por perversão e idolatria, a Classe Média decidiu não reconhecer mais como um igual aquele que senta ao seu lado na poltrona da classe econômica. Hoje em dia não há nada mais patriota do que ter o privilégio de escolher seu próprio torturador.
 
Lidar com o leite derramado, por hora, é tarefa de cada um de nós que reconhece o Fascio atrás dos likes preconceituosos, do ódio fast food nas linhas do tempo virtuais. O Século XXI será o tempo da luta pela sobrevivência das formas democráticas de manifestação. O fim da alteridade, o fim do diálogo, faz desse finado novo brasileiro um representante dessa nublada aurora. A nova forma de inanição que ameaça de morte os novos brasileirinhos é a insuficiência subjetiva. Como disse em recente entrevista o premiado escritor angolano Eduardo Agualusa: “Os Fascistas não devem ler ficção. Para ler ficção é preciso ter empatia.” Não, não é exagero. Dá pra ouvir o eclodir dos ovos dos microfascismos nos recantos de todo o país de hoje. Definitivamente não é exagero. Nas salas de aula, nas instituições públicas, em família, na TV, nas redes sociais a intolerância ganhou um charme vintage. Note-se como o tempo fez reagir quimicamente à baixa temperatura o caldo dessa intolerância guardada à boca miúda, atrás de uma falsa cordialidade. O recato fascista perdeu a vergonha e resolveu mandar nudes. Instrumentalizou-se no Estado. O caminho sempre foi esse, em todos os lugares do mundo. O genuíno povo marginalizado no Brasil, que ascendeu moderadamente nos últimos anos, ganhou de presente nesses novos tempos um novo reflexo no espelho. Essa nova realidade gourmet tem no discurso da prosperidade uma forma idiossincrática de autoestima. Essa nova autoestima, vendida como um indulgência, garante uma alforria incabível de seu próprio passado, de sua violenta história. Como um batismo no Rio Jordão uma nova Classe Média próspera apresenta-se como cidadãos novos, sem passado, perdoados da outrora pobreza, agora precários consumidores ávidos, e, finalmente, filhos de Deus. Se os anos 2000 serviram parte dessas pessoas com oportunidades de ascensão, o neopentecostalismo as ofereceu também outra forma de ascensão, agora simbólica. O simbolismo de uma nova identidade de classe foi abastecido pelos valores da teoria da prosperidade e favorecido pelas fortes redes de capilarização que o neopentecostalismo pode oferecer no país. Com a ascensão dos 40 milhões de brasileiros rumo a Classe Média, o conservadorismo divorciou-se da falência do projeto petista, estruturou-se e retomou as massas para si. Não se move, e sobretudo, transforma-se uma sociedade apenas com transferência de renda. Essa lição o chamado Centrão de Eduardo Cunhas e afins deu às nossas arrogantes esquerdas. O novo prefeito do Rio Marcelo Crivella, um bispo da IURD talvez seja o futuro nos dando boas vindas. Boas vindas que seriam rebatidas cinicamente  por um certo anjo "Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos." Entendamos que uma visão de mundo individualista, baseada no progresso pessoal, ajuda a reagir, a acreditar na probabilidade de mudar o seu próprio futuro, embora oculte por conveniente negligência históricas verdades, injustiças, desequilíbrios nem tão antigos assim. É o ocultamento do todo pela parte, a morte coletiva e a preponderância messiânica do individual, potencialmente próspero. Algo que faz mover massas de indignados gourmet, ex-miseráveis e zagueiros da Seleção. É a era do moralista ostentação, acostumemo-nos. Isto posto, conclui-se que o debate até então mediado pelo projeto de centro esquerda brasileira foi insuficiente ao pautar-se exclusivamente na renda e quase nada na dimensão simbólica dos efeitos da mobilidade social. O projeto lulista não perdeu só o governo, perdeu as pessoas. E aí mora talvez a maior dificuldade de um projeto de reconstrução, pois pela ótica do mercado um branco, um negro, homem ou mulher, um homossexual ou pai de família, satanista ou cristão, um torturador da ditadura ou líder revolucionário são exatamente iguais entre si se há o garantido retorno financeiro à superestrutura, reafirmando eternamente sua lógica de arrecadação. Contudo, se as pessoas deixam de reconhecer minimamente as inconsistências da própria estrutura de exploração ao qual são submetidas, mais do que isso, se passam a defender como um dogma o seu lado obscuro e irracional é porque há algo de errado no esquema tático do time, algo que nossa arrogância canarinho impede que vejamos. E principalmente se a isso é somado valores reacionários dos mais variados tipos, podemos estar falando de algo mais grave.

Exemplos disso são seus inúmeros sintomas manifestos no couro social do cada vez mais evanescido cordial brasileiro. Pode-se compreender por exemplo à confusão temática que atribuem o nome de “ideologia de gênero”. Na cabeça de um intolerante médio, propenso a agir de forma fascista, tudo aquilo que se contrapõe à moral sexual vigente, configura-se como anarquia sexual e um ataque às instituições, como por exemplo no jargão datado: “eles pregam a destruição da família”. Há uma perversão incutida no íntimo de todo aquele que é profundamente dependente de regras, modelos, hierarquias, ou ordem. Perversão essa que dá ao intolerante uma falsa noção de segurança. Willhem Reich, psicanalista estudioso sobre as motivações do Fascismo entre os cidadãos comuns é bem claro ao dizer por exemplo que os conteúdos psíquicos das religiões têm a sua origem nas relações de poder dentro da família durante a primeira infância. De forma que não há mais registros de perversões, do que nos círculos ascéticos, religiosos, familiares e afins. Algo inevitável pela ótica Rodrigueana, uma vez que não para ele "não existia família sem adúltera".  Ou seja, independentemente do Deus ao qual sirvamos, se nos acostumamos com formas dogmáticas repressoras e suas violências, se assimilarmos elas, saibamos que estamos a um passo da naturalização da intolerância. Uma vez feita, acomodada, passamos a condição de seus meros reprodutores nos círculos sociais, ficando reativos a qualquer ataque a essa estrutura de dominação. Eis como nascem os fascistas. Num outro exemplo, outra brilhante autora, Hannah Arendt destaca que toda força totalitária resta dormente em qualquer ação política, inclusive dentro da democracia, fomentando todos os campos ideológicos. O fascismo e suas representações históricas conhecidas são apenas o seu fim último, sua forma mais brutal. Mas, para estar vivo nas entranhas do cidadão comum ele deve apresentar-se sempre hígido, cheiroso, impecável. O fascismo alimenta-se da ignorância, do medo e da pureza das pessoas de bem ao seu redor, podendo fazê-las ostentar camisas negras ou verde-amarelas. Portanto pastores, jornalistas, virgens, desembargadores, garçons, zagueiros, não há qualquer distinção quanto ao papel desse novo neofascista, pode ser qualquer um de nós. A verdade é que convictos eles sempre estarão de que contribuem para a ampliação da democracia, quando fazem simplesmente o oposto. "O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota." eternizou Nelson Rodrigues. A grande diferença desse "novo" idiota, o fascista, é que seus preconceitos são seus próprios campos de concentração.
 
Qual a importância disso tudo? Se compreendermos Fascismo como culto a autoridade passaremos a dar o peso necessário a nossa história e as correntes que arrastamos até hoje. Não falo aqui que o Brasil em um futuro próximo desenvolverá uma forma de nazismo tupiniquim, onde comunistas, nordestinos e funkeiros ostentação serão exilados em campos de concentração sob o sol árido do calçadão de Bangu. Mas que os elementos históricos, sociais, econômicos e psíquicos para a lenta e gradual fervura do caldo cultural de intolerância estão todos à mesa. Então o que seria a versão fascista à brasileira? Está no cotidiano, observe! Veja como você pode se utilizar de emoções, ódios que não são refletidos, e fazê-los brotar desavergonhadamente na rotina silenciosamente. Sentimentos baixos, violências, humilhações transformando-se em ponta de lança contra as opções sexuais, religiosas, de credo e políticas de um outro igual. Formas de preconceitos que jamais seriam pronunciadas sob risco de serem vistas como anticivilizatórias, racistas, homofóbicas, antihumanistas, etc, que cada vez mais são veiculadas através de canais de expressão pseudo-racionais. Não duvide desse caldo, pelo buraco da fechadura o pernambucano Nelson Rodrigues advertia que"em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é algo profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância". Trabalho árduo teria quem se opusesse a essa excêntrica verdade.

É a derrota do diálogo, da política, ante a legitimação das formas de preconceito através do discurso. Não se trata apenas de reclamar do shopping cheio, que os aeroportos viraram rodoviárias, rir de piadas fáceis de comediantes sarristas sobre as manias e rotinas da classe “c”. É a partir daí, achar que em desrespeito aos mortos sob tortura na Ditadura brasileira, ela na verdade foi uma "Ditabranda", que a favela e toda sua diversidade cultural não passa de "um lugar onde só há vagabundo dependente de bolsa família", que a nova regra das empregadas domésticas é injusta e "atrapalha" o seu orçamento, que chutar adolescentes pobres na rua numa parada policial é uma forma legitima de reagir à violência cotidiana, que "a escola ensina seu filho a ser gay" quando os país sequer tem noção do que é a palavra tolerância, que o bravo povo "nordestino é o câncer desse país". Do que esse país vai precisar mais, para encarar sua própria brutalidade? Um novo enforcado de joelhos? Parabéns, do brasileiro canalha que se ressente de ver sua empregada doméstica viajar para o exterior, você foi promovido a herói nacionalista. Talvez por isso, o mestre do cinismo entendesse que a alma canalha do brasileiro quando não aparecia na véspera, não tardava em se revelar no dia seguinte. O que houve com a necessária contranarrativa ao avanço do preconceito? Não sei, apenas chego a conclusão que os escravocratas já podem andar pelas ruas novamente.
 
O Sobrenatural de Almeida, outro personagem do também cronista de futebol Nelson Rodrigues, nasceu da necessidade que o autor, tricolor inveterado, tinha de justificar os tropeços do time das laranjeiras. Tamanho foi o sucesso da personagem em suas crônicas que sua figura foi emprestada para justificar tudo o que ocorresse de imponderável no futebol brasileiro em geral. Maiores detalhes foram surgindo acerca de sua figura a cada dia que ficava mais famoso através das letras de Rodrigues, como o seu temperamento soturno, sua atmosfera elegante, mas sombria, seu olhar nebuloso, e uma indumentária que mais lembrava a de outro lendário personagem brasileiro: o Zé do Caixão! Contudo, com o desgaste natural da personagem na década seguinte, Nelson precisava dar um fim digno a ele em suas famosas crônicas. Alegando profundo baque financeiro na vida do Sobrenatural de Almeida, o autor justificava suas ausências nas crônicas aos atrasos nos jogos, uma vez que não se acostumava com os horários do trem lotado para chegar as partidas do seu time de coração. Isso inclusive fez com que suas sempre temidas manifestações ocorressem apenas na etapa final dos jogos, segundo ele mesmo. Era a constatação da perda da sua relevância já nas palavras do próprio Almeida. O bem trajado e elegante torcedor de Classe Média, com alto poder aquisitivo, viu-se perder em prestígio e influência ao sofrer financeiramente com uma crise econômica indo morar nos confins do Irajá, segundo o autor. Uma verdadeira mensagem brotava nas linhas de Rodrigues aos seus pares brasileiros, e suas visões de mundo, suas perspectivas muitas das vezes messiânicas, conservadoras e sectaristas. Nada poderia ser mais subliminar do que o fim do personagem classe média, Sobrenatural de Almeida. Transmutado para os dias de hoje, nesse momento do país em que por conta de uma onda conservadora impetuosa como um zagueiro destemido, deixa-se para trás todas as conquistas, e coloca-se o país prestes a mergulhar profundo nas águas turbulentas, concentradores de renda, da dura cartilha neoliberal. Chegará o dia em que ao invés de reclamar da insuportável "frequência" da classe econômica durante o vôo, muitos vestidos com o manto sagrado da seleção deverão tolerá-la bem junta de si, na hora do rush, partindo em um trem lotado da Central do Brasil.

Gol da Alemanha.

14:41 Gepost door Rudoris | Commentaren (0) |  Print

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