05-05-11

T. Janér - Como a vida é bela, podendo viajar às custas da Firma

Desde que fui contratado, originalmente pela Filial de São Paulo da T. Janér, eu era obrigado a me deslocar constantemente para todos os cantos do Brasil, principalmente na função de vendedor geral de máquinas, equipamentos e insumos para a Indústria Gráfica como um todo e para os Jornais em especial. Como tenho instrução técnica superior, adquirida na Bélgica, não era raro ser convidado a me transformar em assistente técnico, instalador e até mesmo em consultor também. A minha primeira viagem de avião, ainda na filial de São Paulo (com menos de seis meses de casa e nem falando a língua Portuguesa direito ainda), era para a cidade de Campo Grande, então Capital do Estado de Mato Grosso, no pantanal. Fui escalado para consertar uma maquina impressora plana da marca Solna, modelo 132. Nunca tinha visto nem de longe uma maquina destas e não saberia nem dizer onde é que ligava ela e quais eram as suas características. Para disfarçar a minha ignorância, pedi ao impressor para ligá-la e me indicar qual era a peça que ele achava estava defeituosa. Ele me mostrou, solicitei a peça com urgência na firma, no dia seguinte chegou e no mesmo dia voltei para São Paulo com a missão cumprida.

 

Foi o inicio das minhas viagens, sempre procurando me acomodar em hotéis econômicos e ainda assim discutindo o valor das diárias com os atendentes, enfrentando praticamente todos os motoristas de taxi e me expondo às vezes ao ridículo, já que achavam que eu era um turista estrangeiro boboca e portanto fácil de ser enganado. Assim fui adquirindo o nome de mão fechada, pau duro e até mesmo de miserável, mas sempre com o único intuito de proteger os interesses da firma, negociando em nome dela e preferindo encomendar um sanduíche de queijo no quarto do hotel a um jantar sofisticado num restaurante distante. Trabalhando de dia, visitando inúmeros clientes e elaborando relatórios, à noite, dormindo muitas vezes poucas horas para poder pegar outro avião de madrugada, nem que fossem sábados e domingos. Como se fala aqui, vestindo realmente a camisa da firma e efetivamente contribuindo com o lucro da empresa, sem medir esforços e nem sacrifícios. Em compensação, nenhum cliente, durante trinta e cinco anos de trabalho, se queixou de mim perante os meus superiores. Muito pelo contrario, fui fotografado e elogiado em matérias específicos nos próprios jornais, na qualidade de especialista honesto e trabalhador, em visita às suas instalações.

 

A história começou a mudar quando o filho de um dos diretores foi colocado ao meu lado para aprender o oficio comigo. O nome dele era Octavio Gabizo, que vinha de uma experiência pessoal mal sucedida na área industrial de uma mini-firmeta. E não demorou a me acompanhar também nas viagens, apresentando-se ele mesmo como representante da diretoria da T. Janér e eu como "seu técnico". Ele gostava mais ainda de me acompanhar quando chegava a hora de fechar o negocio, depois de eu ter preparado todo o terreno. Assim, perante o restante da diretoria da T. Janér, ele aparecia como o homem que fazia os negócios e eu, aquele que carregava sua mala.

 

Eu já havia me queixado da sua atitude junto aos colegas, quando ele resolveu contratar um monte de gente nova, todos ganhando logo de cara o dobro do que eu ganhava então, já com vinte anos de casa. De todos os seus novos funcionários, ninguém era Índio, todos eram Chefes e, assim sendo, me obrigava a me relatar a eles, na qualidade de meus superiores. Enquanto que a minha função, na minha carteira de trabalho, era de “Promotor de Vendas”, posteriormente promovido a “Assistente de Marketing”, eles eram logo classificados de Gerente, Encarregado, Superintendente, Chefe, Chefete e Chefinho. Não durou anos para todos, um atrás do outro, serem demitidos, por incompetência, falta de honestidade, falta de resultados e de gastancia abundante. E eu fiquei ficando, até o fim..

 

Por outro lado, o Octávio Gabizo também não concordava em se hospedar em hotéis três estrelas e assim, na hora de dormir, cada um ficava no hotel da sua própria classe social. Acabavam as discussões sobre os valores das corridas cobrados pelos motoristas dos taxis e pelo contrario, eles ganhavam gorjetas extras e eram até mesmo convidados a esperar, com o relógio ligado, na porta dos clientes. Os almoços passarem a ser patrocinados por ele e eram ricos, enquanto que os jantares, regados.

 

Numa destas ocasiões, aqui em Recife, havíamos acabado de concluir um negocio todo preparado por mim, faltando apenas assinar o contrato entre o cliente (Jornal Do Comércio) e o fabricante do equipamento de expedição de jornais (Quipp - um Fred Rodriguez qualquer). Era pura formalidade. Já logo na saída do hotel para o encontro com o cliente, os dois se atrasaram. Eles achavam, como continuam achando que, na condição de diretores, realmente haviam conquistado o direito de atrasar-se meia hora, ou mais, dependendo da importancia do entrevistado. Não era só um sinal do rito que rege o comportamento de diretores no Brasil, como era um sinal de quão superiores eles realmente se achavam. De fato, atrasar para eles é uma forma de vida e de comportamento. Mesmo que com isto estão desrespeitando os que concordam em esperar e que também são diretores, porém muitas vezes, mais competentes.

 

Sobre o tal Fred Rodriguez qualquer, o representante da Quipp, já tecei comentários anteriormente. Já sobre o Octávio Gabizo....

 

Naquele dia, ele chamou os dirigentes do jornal para um jantar de comemoração inicialmente e depois os convidou para dar uma esticada num lugar mais apropriado. Para esta saída extra, o próprio cliente sugeriu uma visita a uma casa que, por fora parecia absolutamente normal, mas a onde, por dentro, circulavam dezenas de garotas novas, uma mais bonita do que a outra. Eu, bem casado, neguei qualquer aproximação. Igual aos representantes do Jornal.

 

Já o Gabizo e o Fred, resolveram ficar lá, quando nos despedimos...

 

Como é bela a vida de Diretor Bem Sucedido da T. Janér.

22:11 Gepost door Rudoris | Commentaren (0) |  Print

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