18-03-11

T. Janér - Corujas são espertas: elas põem seus ovos no ninho dos outros

Viajar, eu realmente nunca gostei. Se não era para poder “desaparecer" por algum tempo da vista de algumas criaturas, era para atender às necessidades do meu trabalho. A viagem para a Suécia, por exemplo, foi importante apenas no campo profissional. Cheguei lá, vindo do Rio, onde era quarenta graus acima de zero, em uma manhã de domingo, enquanto em Estocolmo, pasmem, era 26 graus abaixo. É claro que eu não tinha a roupa adequada comigo. Ainda assim, decidi me aventurar em um passeio à pé no centro da cidade. Vinte e seis graus abaixo de zero, no entanto, não se deve desafiar sem um sharpe grosso para proteger não só o seu pescoço como também e principalmente as suas orelhas. Eu não só tinha esquecido de levar um sharpe, como também não tinha certeza se realmente ainda dispunha de um, que originalmente me foi doado pela minha prima na Bélgica, Annie, junto com um par de luvas de algodão. Minhas orelhas estavam praticamente congeladas e eu temia que, mesmo que tentasse aquecê-las com as mãos, involuntariamente, as quebraria. A solução, depois de ter circulado por horas na cidade, recusando-me a admitir que estava perdido, era chamar um táxi para me levar de volta ao hotel. Você acredita que levou mais de 20 minutos para o táxi chegar lá?

 
Outra viagem da qual não me sobrou muita saudade, foi para a cidade de Las Vegas. O filho ainda imaturo (embora já então com mais de trinta anos de idade), do nosso diretor, Octávio Gabizo, se juntou a mim e nós perambulamos por quilômetros entre e dentro de túneis que os maiores hotéis de lá possuíam, mostrando ambientes refletindo diferentes estados da natureza, como desertos, florestas, áreas pantanosas, montanhas e coisas do gênero. Estávamos admirando um cenário atrás do outro até esbarrar numa grande janela através da qual era visível um mini-lago, cercada por grandes rochas e uma pequena praia de areia na qual se encontrava um casal de tigres brancos que, preguiçosamente, se movimentava de um lado para o outro. Diversos curiosos cercaram-nos e ficamos mais tempo do que eu achava necessário. Voltei-me impacientemente para o meu colega, informando-lhe que a vida continuava, mas ele não fez nenhum movimento para sair de lá. Eventualmente tentei convencê-lo que ainda havia várias outras atrações para visitar, mas ele não se convenceu. Como eu passei ansiosamente a puxá-lo pelos cotovelos, ele me então avisou: "Rudo, o homem aqui, ao meu lado, me avisou que a cada meia hora os dois tigres pulam na água para mostrar como tomam banho. Por favor, aguarde mais alguns minutos, porque que eu não quero perder este espetáculo!"

 
Ele me deu outro sinal da sua total inocência, quando, durante outra viagem para Nova York, visitamos o distrito de "Chinatown" onde ele se interessou bastante em adquirir alguns relógios baratos, evidentemente falsificados (por exemplo, um relógio Rolex por três dólares), sem perceber naturalmente a diferença entre “o ouro” e “o dourado”. Enquanto eu observava atentamente a multidão, de repente veio um negro em nossa direção com um enorme saco pendurado nas costas, segurando-o por cima do ombro. Mal ele passou por nós, parou num cruzamento onde ele espalhou diversos tipos de aparelhos de telefone sem fio na calçada, tudo numa ação rápida de exibição, enquanto ele conclamava, depressa, depressa antes que a polícia os leva. São todos novos, rápido, rápido, por um décimo do preço na loja do outro lado da rua... e aí, meu patrão... , vai ou não vai?.. olhando para o Gabizo.....

 

Os aparelhos estavam todos envolvidos em um plástico transparente, do tipo em que você compra um quilo de carne moída, mas não deixava ver o suficiente para poder julgar como era sua condição exata. Depressa, depressa... o homem chamava novamente..... Quanto?, quanto? perguntou o Gabizo. Vinte dólares.... Rudo rápido, rápido, dá-lhe o dinheiro, Rudo..

 

Eu realmente não pensava em comprar um aparelho destes para mim, mas como era empregado, não tinha escolha e passei-lhe o dinheiro, mas mal ele entregou os vinte dólares, como se fosse um vento, ele recolheu tudo e fugiu, provavelmente de algum perigo que estava se aproximando. O Gabizo me entregou mais rápido ainda o embrulho, porém como também não queria ser confundido com receptador de coisa roubada, guardei-o de pronto na minha bolsa e o homem do qual ele aparentemente estava fugindo passou por mim sem me incomodar.. oh, que sorte, Rudo..., que sorte!!

 

Chegando ao hotel, de volta a Manhattan, decidi imediatamente cobrar do meu chefe o valor da muamba, tentando lhe integrar o pacote embrulhado na plástica de carne moída, o qual ele aceitou hesitante, não sem, quase implorando, insistir para eu mesmo levasse o dispositivo para o Brasil, porque não queria ser confundido com contrabandista não e que não tinha coragem para isto. “Por favor, Rudo, me faça um favor e faça isto para mim...” e lá fui eu e fui iludido de novo... com um aparelho suspeito na minha bagagem, sem nota fiscal e nem na embalagem original...

 

Para encurtar uma longa história: eu aceitei carregar o telefone sem fio comigo na bagagem, passei na alfândega no Rio com o furíco apertado e chegando em casa, tentei ligá-lo, mas sem resultado algum. Curioso, resolvi abrir o aparelho e, Deus que me perdõe, não havia nada, nem mesmo um fio enferrujado, dentro dele..

 

Que vergonha Gabizo, que vergonha..

17:31 Gepost door Rudoris | Commentaren (0) |  Print

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